Arquivo da Categoria: E se…

Um programa com a assinatura de Norberto Pires.
Realização de Rijo Madeira

E SE 9 – Uma vida que ardeu, uma esperança que é necessário reconstruir

Uma vida que ardeu, uma esperança que é necessário reconstruir!

Oliveira do Hospital ardeu depois de Pedrógão. Morreram muitas pessoas, várias famílias ficaram destruídas e isso nunca ficará bem e nunca se resolverá. São marcas que ficam para a vida toda, são memórias que voltam e atormentam.
O que ardeu foi praticamente tudo.
Floresta e espaço verde de lazer. Na verdade, o verde praticamente desapareceu.
Empresas e o emprego de muita gente. Depois das mortes, este é o drama mais significativo.
Na J. Guerra, Lda trabalhavam 50 trabalhadores. Ardeu a 100%. Demorará muito tempo a voltar a laborar. Mas demorará ainda mais tempo a recuperar o ânimo, a alegria de viver. Isso é o mais significativo no que vemos.
Na empresa Construções Gouveia & Filho, Lda trabalhavam 34 trabalhadores. Ardeu a 100% e pensa estar a laborar dentro de alguns meses.
Luís Lagos, empresário e ex-presidente de uma distrital partidária, percebeu que tinha de dar um passo em frente e ajudar na reconstrução do seu concelho. Viu a desgraça perto da sua família e empresas a desaparecerem. A sua não sofreu, mas a da sua mulher foi totalmente destruída.
Os custos associados a estes incêndios medem-se em vidas perdidas, famílias destruídas, floresta perdida, negócios arrasados e um efeito muito significativo na esperança num futuro melhor. De tudo, apesar de certas coisas não terem solução, o mais difícil de recuperar é o ânimo necessário recomeçar tudo de novo. Esse é o maior custo, porque apesar de tudo a vida continua, e aquele aspeto que merece uma atenção muito especial.
Os incêndios deste verão mostram um país desorganizado e impreparado para estes eventos naturais.
O “E se…” quis mostrar essa realidade, deixando claro que é nossa obrigação garantir que vamos construir um país que estará preparado e é solidário com quem é atingido pela calamidade. E essa é uma resolução que todos temos de tomar e realizar.

“E Se…”, um programa de Norberto Pires com realização de Rijo Madeira.

E SE 8 – Coimbra com futuro: Active Space Automation

 

A região de Coimbra tem sido capaz de gerar tecnologia e negócios que se distinguem no mundo. São vários os exemplos de empreendedores, empresas e produtos que têm o nome de Coimbra de alguma forma associado. No “E se…” vamos falar dessas pessoas, dessas empresas e desses produtos. A ideia não é mentir e dizer que está tudo bem. A ideia é contar a verdade, mostrar que com a estratégia certa, com a capacidade coordenar os vários atores da região, com a capacidade de incentivar os motores de desenvolvimento, Coimbra tem condições para fixar empreendedores, atrair e fixar atividade económica e construir soluções que podem fazer a diferença nas várias áreas de atividade.

Hoje vamos ver o exemplo da Active Space Automation, uma empresa recentemente criada como spin-off da ActiveSpace Technologies – empresa criada há cerca de 13 anos e que se dedica a sistemas para o ESPAÇO.
A indústria pede sistemas de transporte para armazenamento e para ambiente produtivo.
Em armazém, por exemplo, existem várias tarefas a automatizar e que estão essencialmente ligadas ao transporte de peças para armazenar ou para constituir uma encomenda que, entretanto, foi efetuada. Um grande armazém com, por exemplo, a AMAZON ou o ALIBABA têm uma movimentação frenética que precisa deste tipo de máquinas.
De uma maneira geral, qualquer armazém com encomendas online beneficia muito de uma operação deste tipo que automatize e agilize a cadeia logística.
Em ambiente produtivo, isto é, para tarefas de alimentação de linhas com as peças necessárias, transporte de produtos semiacabados, armazenamento intermédio e final, etc., os AGV são também muito usados.

Em Coimbra, uma empresa aceitou o desafio de entrar neste mercado. Criou um AGV que pode ser utilizado em todas essas tarefas.
A empresa é a Active Space Automation e o AGV é o ActiveONE.
A Active Space Automation tem 14 trabalhadores (50 no total da Active Spce) e espera faturar cerca de 700 mil euros em 2017 (3 milhões no total da Active Space). Está localizada em Taveiro e tem excelentes condições para desenhar, projetar, construir e comercializar soluções que utilizem esta tecnologia.

Capacidade de projeto em 3D.
Capacidade de desenvolvimento de eletrónica.
Capacidade de soluções de controlo.
Meios de produção de protótipos.
Capacidades de teste.
Uma equipa jovem e fortemente motivada para este tipo de soluções.

Um dia (em 2015), com um protótipo, abordaram uma grande empresa (A AutoEuropa) e prometeram que teriam um produto em breve. Cumpriram prazos e ganharam um parceiro.

Mas o que é o ActiveONE?
É um AGV, filo-guiado, isto é, que segue um trilho eletromagnético colocado no chão (o trajeto), de construção nacional e que pode ser usado nas soluções mais exigentes: é preciso, rápido (1500 mm/s), com elevada capacidade de autonomia (em operação normal as baterias não precisam de carga durante mais de 7-8 horas), capacidade de movimentação de carga até 800 kg, ligação em rede sem fios, etc.

Deixo-vos com o ActiveOne e com a Active Space Automation. Este produto, estes empreendedores e esta empresa são um exemplo do que Coimbra pode fazer e como pode liderar mesmo nas áreas mais exigentes. São um bom exemplo de visão, de capacidade de fazer parcerias, da capacidade de realizar e mostram um vislumbre de uma região onde as coisas acontecem.
E se Coimbra estivesse focada nessa ideia de criar as condições para projetar e produzir as soluções tecnológicas do futuro? Não seria tudo diferente?

“E Se…”, um programa de Norberto Pires com realização de Rijo Madeira.

E SE… A Rua de Santa Sophia e um FUTURO POR CUMPRIR

Uma rua fantástica, com história e um potencial fabuloso: a Rua de Santa Sophia, de Coimbra (atualmente, Rua da Sofia).
Uma rua com história, com um passado fantástico. Uma rua que tem muito a contar, basta que estejamos disponíveis para ouvir. Uma rua que tem um futuro por cumprir.
É esse o tema do 7⁰ episódio do “E se…”, um programa de Norberto Pires, com a realização de Rijo Madeira.

O rei D. Dinis criou em 1290 uma Universidade Portuguesa, dando origem a uma instituição que é hoje a universidade mais antiga do país e uma das mais antigas do mundo. O documento de criação da universidade dá origem ao Estudo Geral que é reconhecido nesse mesmo ano pelo Papa Nicolau IV. Essa Universidade começou a funcionar em Lisboa, mas foi transferida definitivamente para Coimbra em 1537 por ordem de D. João III. A vida da Universidade prossegue em Coimbra, com várias peripécias até atingir aquilo que é hoje: uma universidade internacional, clássica, com forte imagem em Portugal e no Estrangeiro, fruto do prestígio dos seus docentes, alunos, investigadores e da atividade científica e cultural que realiza.
Não é sobre a Universidade de Coimbra que vos quero falar, mas sim de uma das ruas mais antigas da europa e que esteve na génese da Universidade de Coimbra e é hoje património mundial da UNESCO: a Rua da Sofia.
A transferência da universidade portuguesa de Lisboa para Coimbra está relacionada com a necessidade de lhe dar um novo impulso. Os anos de funcionamento em Lisboa levaram a uma certa acomodação do corpo docente, não se desenvolveram colégios de apoio com a função de realizar estudos propedêuticos, como o rei esperaria que tivesse acontecido, o programa de estudos não estava alinhado com os vetores essenciais do humanismo cristão de vanguarda e existia uma grande quantidade de alunos portugueses que procuravam escolas estrangeiras para estudar, nomeadamente, Salamanca, Alcalá (uma pequena cidade situada a nordeste de Madrid), Bolonha, Florença, Paris, entre outras. D. João III, reconhecendo o problema, decidiu então criar em Coimbra um dos “grandes centros culturais da península”, transferindo para esta cidade, construída nas margens do rio Mondego, a universidade portuguesa.
O rei dispunha de importantes fundos financeiros para lançar o projeto universitário na cidade de Coimbra. Na verdade, tinha iniciado uma importante reforma (espiritual e material) do Mosteiro de Santa Cruz, nomeadamente da Ordem dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho ou Cónegos Regulares da Ordem da Santa Cruz, libertando assim para sua gestão os abundantes rendimentos que estes geravam. Tinha nomeado em 1527 como reformador da respetiva congregação o frade da Ordem de São Jerónimo Frei Brás de Braga, com a missão suplementar de restaurar os Estudos do Mosteiro de Santa Cruz. Mandou vir de Paris dois Doutores, Pedro Henriques e Gonçalo Álvares, que gozaram de tal fama como professores que Frei Brás criou, no interior do Mosteiro, dois colégios: O Colégio de São Miguel (dedicado aos filhos dos nobres) e o Colégio de Todos os Santos (dedicado aos mais pobres). Mais tarde, em 1544, o Prior-Geral (D. Dionísio de Morais), mandou construir, no topo da Rua da Sofia (no local que é hoje o Centro de Artes Visuais e o Pátio da Inquisição), edifícios para os dois colégios, os quais seriam mais tarde (1547) requisitados por D. João III para instalar o Colégio Real das Artes e das Humanidades.
O Mosteiro de Santa Cruz desenvolvia vários estudos no seu interior, que no essencial são os embriões de um futuro estudo superior. Desempenham aqui papel importante os estudos públicos de artes que se iniciaram em 1534-35 e os estudos dos Colégios de Santo Agostinho e de São João Batista, instalados no interior do Mosteiro e para os quais se tentou um modelo à imagem da escola parisiense (limitados a estudos de Artes, Teologia e Medicina). A dinâmica do Mosteiro de Santa Cruz levou a pensar na construção de uma infraestrutura urbana para acomodar os estudos a criar junto ao Mosteiro. Foi assim que nasceu a ideia de uma rua nova, virada a norte, com início no Mosteiro de Santa Cruz, muito larga (13 metros) e cerca de 500 metros de comprimento, que tivesse colégios de um lado (nascente) e edifícios de rendimento do outro (poente). O desenho definitivo dessa rua ficou definido em setembro de 1535, depois de vária troca de correspondência entre D. João III, o reformador Frei Brás de Braga e o arquiteto do Rei em Coimbra, Diogo de Castilho.
Os planos iniciais para esta rua são os de aí realizar o essencial da Universidade, pois D. João III pretendia construir no início da rua um Colégio de São Jerónimo e um edifício letivo central. No entanto, quando em 1537 se transfere a universidade portuguesa para Coimbra parece haver uma mudança de planos: o Rei D. João III separa os estudos do Mosteiro de Santa Cruz da universidade, nomeando um Reitor (D. Garcia de Almeida) independente de Santa Cruz e definindo que o edifício sede já não se construiria na baixa. A preocupação era, talvez, a de preservar a autonomia da universidade.
Em setembro de 1537, o rei determina que as novas escolas gerais se instalassem na alta da cidade, fazendo, no entanto, algumas cedências ao reformador Frei Brás de Braga (pois dependia financeiramente do dinheiro gerado em Santa Cruz): a maior parte dos estudos instalavam-se nos paços reais da alta, enquanto que os estudos de artes e teologia ficavam em Santa Cruz.
O loteamento da Rua da Sofia começa em 1538, no que se refere à parte de prédios de rendimento e em 1541 no que se refere aos colégios. Avançariam vários colégios, dos quais podemos dar nota na atual Rua da Sofia. Mas antes disso, em 1544, com a nomeação do frade da Ordem de São Jerónimo Frei Diogo de Murça como reitor da universidade, deu-se início ao processo de unificação da universidade, transferida de Lisboa, com os estudos de Santa Cruz. Isso acontece em 1545, quando D. João III ordena que todos os lentes de medicina, teologia, artes e latim, mudem para os paços reais da alta.
Nessa altura, avançava a ideia de concentrar na alta da cidade os estudos superiores e na baixa os cursos propedêuticos/preparatórios de artes e humanidades. Uma ideia que reconvertia o projeto da rua da sofia, agradava a Frei Brás de Braga e tinha sido delineado entre D. João III e André de Gouveia, um docente muito prestigiado que dirigia o Colégio da Guiana em Bordéus e tinha sido reitor da Universidade de Paris. Assim, a Rua da Sofia deveria acomodar principalmente colégios de ordens religiosas que tinham especial interesse nesse tipo de estudos. Os colégios seculares que estavam então em fase de instalação foram transformados em colégios de ordens religiosas. Por exemplo, o Colégio da Graça, dos eremitas calçados de Santo Agostinho, iniciou a sua construção, com projeto de Diogo Castilho, em 1593.
O Real Colégio das Artes e das Humanidades, instalado nos edifícios dos Colégios de São Miguel e de Todos os Santos (local onde hoje é o Centro de Artes Visuais e o Pátio da Inquisição), iniciou-se em 1547 e era um edifício que deveria ter amplas salas de aula e albergar estudantes de vários estratos sociais. O ensino visava a formação moral e humanística dos jovens, sendo ministradas matérias como a teologia, dogmática, escrituras, gramática, retórica, poesia, matemática, grego, hebraico, lógica e filosofia, além de ler e escrever. O Colégio das Artes está na génese do atual ensino secundário. As aulas começaram em 1548, tendo registado um elevado sucesso com cerca de 800 alunos logo no primeiro ano.
No entanto, a existência do Colégio das Artes não foi pacífica por disputas internas de mestres parisienses e bordaleses. Na verdade, André Gouveia tinha sido nomeado para dirigir o Colégio das Artes, trazendo consigo uma equipa de notáveis professores portugueses e estrangeiros. De entre estes destacam-se João da Costa, Diogo de Teive, António Martins, George Buchanan, Patrick Buchanan, Nicolas de Grouchy, Arnaldo Fabrício, Guillaume Guérante e Élie Vinet. O contraste entre os princípios humanistas dos “bordaleses”, liderados por André de Gouveia, e a visão ortodoxa defendida pelos “parisienses”, liderados por seu tio Diogo de Gouveia, viria a provocar alguns atritos. Esses atritos tornaram-se muito sérios com a morte de André Gouveia em 1548, pelo que D. João III entregou, em 1555, a gestão do Colégio das Artes aos jesuítas. Estes tinham iniciado a construção do primeiro colégio jesuíta do mundo na alta da cidade (o Colégio de Jesus, onde funciona hoje o departamento de Ciências da Terra), pelo que transferiram, em 1565, o Colégio das Artes para um edifício a construir ao lado do respetivo colégio. Com esta mudança, a Rua da Sofia perde toda a sua funcionalidade, pois todos os cursos, superiores e intermédios, passam a estar localizados na alta da cidade.
Apesar disso, os colégios da Rua da Sofia que já tinham sido estabelecidos foram-se construindo, sendo possível encontrar ainda muitos deles na atual Rua da Sofia.
Colégio Novo de Santo Agostinho (atual Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação) – 29: apesar de não se situar na Rua da Sofia, tem um impacto visual muito significativo nessa rua (fica situado a meia encosta no extremo sul da rua).
Mosteiro de Santa Cruz – 31.
Antigo Colégio das Artes, Pátio da Inquisição, Centro de Artes Visuais – 21 (de João de Ruão e Diogo Castilho, 1547).
Colégio do Espírito Santo ou de São Bernardo, privado – 22 (Claustros de Miguel de Arruda, 1541).
Colégio do Carmo – 23 (1540)
Colégio da Graça- 24 (1543, Igreja e Claustro de Diogo de Castilho)
Colégio de São Pedro, atualmente uma casa de saúde – 25 (1540)
Colégio de São Tomás, onde hoje é o Tribunal de Coimbra – 26 (Diogo de Castilho, 1543)
Colégio de São Boaventura, privado e com espaços comerciais – 27 (1543).
Os Colégios de São Tomás, de São Boaventura e de São Domingos são os únicos que foram construídos do lado poente, como reflexo do fracasso da ideia original para a Rua da Sofia.
A extinção das ordens religiosas em 1834 acabou com a existência dos colégios. Os edifícios foram incorporados no património do Estado, sendo alguns deles vendidos para vários fins.
A história da Rua da Sofia, património mundial da Unesco, é muito rica e está fortemente ligada à história da Universidade de Coimbra. Por isso, quando se discutiu a possibilidade de recuperar e revalorizar os Colégios da Sofia, num debate realizado em 1999, o então reitor, Fernando Seabra Santos, lançou a ideia de constituir na Sofia o Polo 0 da Universidade de Coimbra, transferindo para lá algumas valências universitárias. Essa seria uma forma de fomentar a gigantesca tarefa de dar um novo propósito à Rua da Sofia que, de alguma forma, recuperasse a ideia original de meados do século XVI.
Um bom exemplo, é o que tem sido feito no Colégio da Graça e que urge acelerar.
A Rua da Sofia merece, pela sua importância histórica, ser reabilitada, assim como os vários colégios que ainda existem. Faria também sentido que a sua história fosse mais visível, mais visitável e mais promovida. A história da universidade portuguesa está um pouco naquela rua, naqueles edifícios, na sua arquitetura e nas histórias que têm para contar. E se Coimbra pensasse na reabilitação histórica, monumental e funcional da Rua da Sofia, dando-lhe também uma dimensão turística relevante? Não se esqueçam que os edifícios do lado poente eram edifícios de rendimento, um propósito que pode também ser explorado transformando, de novo, a Rua de Santa Sophia num importante local comercial e económico da cidade de Coimbra. E se pensássemos nisso?
J. Norberto Pires
Universidade de Coimbra
Referências
1) Rui Lobo, A Universidade na Cidade, Tese de Doutoramento, Universidade de Coimbra, 2010
2) Rui Lobo, “A Rua da Sofia em Coimbra. Um património a repensar”, Revista Proyetar la Memoria, 2014
3) Site da Universidade de Coimbra: http://www.uc.pt/ruas/inventory/mainbuildings
4) Outros links referidos expressamente no texto.

E SE… – Praxe: receção aos caloiros

Este é um daqueles programas que não fará de mim uma pessoa muito popular, mas isso na verdade pouco me importa. Nos últimos dias presenciei, de novo, cenas verdadeiramente degradantes nas várias praxes de receção aos caloiros que fui encontrando um pouco por toda a cidade. Insultos de todo o tipo, palavras de ordem aos gritos, humilhações várias, alunos com excesso de álcool ao ponto de não se aguentarem em pé, alunos que caiem na rua (como presenciei há dias), porque estão de tal forma alcoolizados que pura e simplesmente desmaiam, muito ruído e um conjunto de atividades que nada têm a ver com divertimento, algo que se possa identificar como uma prática de receção àqueles que escolheram Coimbra para estudar ou qualquer outro tipo de ação que eu, mesmo fazendo um enorme esforço para recordar aquilo que fiz como estudante, consiga sequer considerar minimamente admissível.
Atualmente, a praxe de receção aos caloiros resume-se em grande medida a um conjunto de atividades que não dignifica ninguém. Nem quem a aplica, nem quem a recebe, nem a universidade, nem a cidade e muito menos representa algo que possamos considerar espírito académico. É preciso ser claro. Estas práticas não fazem o menor sentido e precisam de uma revisão urgente. Preocupa-me que isto aconteça um pouco por todo o país, mas preocupa-me ainda mais que aconteça na minha universidade. Os alunos da Universidade de Coimbra, em colaboração com a reitoria, deveriam repensar a PRAXE e fazer dela um exemplo para todo o país e para todo o mundo. É uma obrigação e uma necessidade.
A receção aos caloiros tem de ser algo que nos distingue. Com diversão, claro. Com exagero, porque não? Com todas as coisas que têm a ver com pessoas jovens, que têm a vida pela frente e a encaram destemidas, com entusiasmo, cheias de projetos e ambições. Claro que sim. Mas não pode perder o seu propósito, nem pode esquecer que se enquadra numa cidade e numa universidade que tem mais de sete séculos de história. Uma universidade que criou e reinventou a Praxe, que lhe deu várias formas, que a suspendeu e reviu, que a teve sempre como uma prática dinâmica ao serviço dos estudantes e da imagem da Universidade de Coimbra. É importante que esta festa seja uma forma de receber os que nos escolheram, onde lhes são apresentados os vários locais e atividades a que se podem dedicar em Coimbra para além de estudar. Uma forma de lhes apresentar a universidade, os seus serviços e capacidades, a cidade, a sua história e cultura, a região, um estilo de vida com boémia, com cultura, com tertúlia, com amigos, com muitas vivências que só são possíveis numa cidade como Coimbra e numa universidade clássica e secular como a nossa. Deixar que tudo isto se resuma a muito álcool, atitudes nada dignas e muito ruído, é muito pouco, é muito triste e sobretudo não nos dignifica.
Repensar tudo isto é um trabalho urgente. Desafio o Reitor da Universidade de Coimbra e o Presidente da AAC a assumirem essa tarefa como objetivo de curto prazo, dinamizando os estudantes, mas também os docentes e funcionários para algo que me parece absolutamente prioritário. Assumindo o passado, tendo dele um enorme orgulho, mas percebendo que o que hoje fazemos não é, de forma alguma, algo que nos possa deixar satisfeitos ou que nos represente.
Muitos argumentarão, até de forma comparativa, que também existiram excessos no passado que não foram controlados em devido tempo.
É verdade. No entanto, este problema é hoje muito sério porque os danos de imagem, para todos, são agora muito significativos. Afetam-nos a todos de forma muito evidente, mas, arrisco dizer, afetam de forma muito mais significativa os estudantes. A imagem anterior de boémia, associada a coragem, capacidade de intervenção e irreverência, com alguns excessos e excentricidades pelo meio, é agora essencialmente de excessos sem grande conteúdo. Isso não é nada positivo e tem de nos preocupar a todos.
É por tudo isso que apelo aos órgãos da Universidade de Coimbra, da Cidade de Coimbra e da Associação Académica de Coimbra para que repensem a festa e tomem medidas para impedir os excessos, retomando de forma muito marcada a ideia original de uma festa estudantil, irreverente, interventiva, com aspetos culturais muito relevantes, muito divertida e atrevida. É isso que nos distingue.
Norberto Pires

E se… , um programa de Norberto Pires
Realização de Rijo Madeira

 

Nos próximos 20 anos: realizar

Nos próximos 20 anos, Coimbra deve ambicionar estar no grupo da frente das cidades portuguesas, e no grupo das 10 primeiras cidades europeias de igual dimensão, nas seguintes variáveis: 1 ) Emprego; 2 ) Produto Interno Bruto per capita; 3 ) Educação: primária, secundária, universitária, ocupacional e profissional; 4 ) Capacidade de transformar conhecimento em atividade económica; 5 ) Cuidados de saúde; 6 ) Cuidados específicos de apoio aos idosos e às suas famílias, bem como aos desfavorecidos; 7 ) Qualidade de vida e ambiente; 8 ) Participação cívica e democrática dos cidadãos na vida do concelho.
As potencialidades de Coimbra para atingir estes objetivos são bem conhecidas e têm de ser potenciadas e aproveitadas: a sua centralidade geográfica, a Universidade e a sua capacidade – que tem de ser reforçada – de atrair pessoas jovens, a área da saúde que é dinâmica e de elevado potencial, a sua história e monumentalidade, a qualidade do seu território, as pessoas e os recursos endógenos, entre muitas outras potencialidades que precisam de ser melhor exploradas e coordenadas. Exige-se, no entanto, uma nova atitude, disruptiva e centrada na capacidade de atrair e fixar empreendedores, criar negócios, fixar empresas, gerar atividade económica e emprego, permitindo que Coimbra tire partido da sua capacidade de criar conhecimento e inovar. Coimbra tem de criar condições para o investimento, mostrar que se organizou e sabe o que é necessário, e que tudo isso está no seu ADN. Há perguntas que temos de ser capazes de responder: A nossa cidade preparou-se para o investimento? Pensa pela cabeça de um investidor? Preparou-se para atrair empreendedores? Fez o trabalho de casa? Está consciente disso? Organiza o seu espaço, incluindo inúmeros edifícios urbanos abandonados, para localizar atividade económica? Pensa na baixa e no seu potencial, até como comunidade, para diferenciar a cidade relativamente a outras e com isso dinamizar ações que tenham como missão gerar atividade económica, e com isso riqueza e emprego?
Enquanto que outras cidades foram realizando estratégias para responder a esses desafios, como é o caso, por exemplo, do Porto, Aveiro, Guimarães e Braga, a cidade de Coimbra, alheada do seu potencial e daquilo que se passa no país e no mundo, inebriada por um passado glorioso e, aparentemente, considerando que existem coisas que são suas por direito, ignorou por completo a economia, as empresas, não quis saber do iParque (que é urgente reativar, construir a 2ª fase e construir a aceleradora TESLA, destinada a empresa de cariz industrial), não promoveu a diferenciação, a capacidade de atrair atividade económica, a capacidade de fixar empreendedores, e, em consequência, tem os resultados que estão à vista de todos. Resultados que só nos podem envergonhar e que colocam em causa essa ideia de que somos os melhores. Por exemplo, a Câmara Municipal publicou há dias um regulamento destinado a atrair investimento. É um pequeno passo, apesar de tardio, no sentido certo. No entanto, faltam milhares de outros passos, bem maiores: falta o compromisso pela celeridade de processos, incluindo licenciamento, falta a ideia clara de parceria comprometida, faltam equipas, falta dinamismo, falta perceber o que deve ser feito, e falta a vontade e engenho para construir uma estratégia que permita que Coimbra seja um local vibrante e onde as coisas acontecem. É tudo isto que temos de realizar. As entidades públicas definem política, agilizam o processo de decisão e licenciamento, ajudam, promovem, criando uma parceria comprometida. O resto, acontece naturalmente.
A inovação pode transformar uma cidade. Pode ser o catalizador decisivo dessa transformação, desde que seja bem entendida pelos decisores e pelos cidadãos. Nesse objetivo, são essenciais as seguintes tarefas:
– Identificar, atrair e fixar líderes, pois isso é essencial para uma mudança sustentada de rumo. Isso significa pensar globalmente a cidade, tornando-a um local que seja capaz de atrair e fixar aqueles que criam oportunidades, formam equipas e incentivam os outros numa dinâmica empreendedora que é essencial adoptar. Este objetivo será transversal a todas as medidas que serão propostas, sendo claro que o seu grau de sucesso, inicialmente modesto, será diretamente proporcional aos resultados que forem sendo obtidos e à mudança de atitude que todos formos capazes de protagonizar;
– Ajudar na transformação do conhecimento e das ideias em projetos inovadores que tragam para Coimbra atividade económica e gerem mais-valias que permitam criar emprego. Isso implica uma estratégia partilhada com os vários atores municipais, regionais e nacionais nesta área, procurando identificar iniciativas e ter no terreno os meios para lhe dar corpo e acelerar o seu desenvolvimento.
Mas também ter uma ideia clara de coordenação para que as várias ações possam ser eficazes. Nessa perspetiva, é essencial:
– Gerir de forma integrada os vários locais de localização empresarial da cidade, bem como definir uma estratégia que permita fixar no interior da cidade áreas empresariais para as quais a cidade está especialmente vocacionada e para as quais existem fortes possibilidades de ser um local de sucesso pelas potenciais sinergias que se podem criar. São exemplos as áreas cultural, turística, serviços especializados, educação e formação, tecnologia, software de aplicação, etc. Essa gestão, deverá ser feita por uma entidade única, sem fins lucrativos, que tenha a câmara municipal como parceiro e que possa reunir os vários parceiros desta área: instituições universitárias, centros de I&D, empresas, comerciantes e cidadãos.
Todos estes objetivos têm de ser possíveis de avaliar usando os indicadores acima referidos, nomeadamente o emprego e a atividade económica. É para isso que devemos direcionar os nossos melhores esforços.

E se… , um programa de Norberto Pires
Realização de Rijo Madeira

E se… – O convento de São Francisco e a bela abandona

O Convento de São Francisco foi construído no século XVII e foi um convento de frades. Depois foi uma fábrica de lanifícios e acabou por ser adquirido pela CMC em 1995. Esteve para ser um centro de negócios e escritórios, um centro de congressos, um espaço hoteleiro e cultural até que, em Outubro 2010, foi adjudicado o projecto de equipamento cultural que acabou por ser construído.
A obra deveria ter sido inaugurada no final de 2012, isto é, há quase 4 anos e meio. Sim, leu bem, já vamos com uma derrapagem temporal de execução de cerca de 4 anos e meio.
O orçamento inicial foi de 23 milhões de euros. Atualmente, o custo da obra já deve ser superior a 50 milhões de euros, ou seja, apresenta uma derrapagem financeira de mais de 100% do orçamento inicial.
A programação do espaço e a sua gestão, dada a importância e dimensão do equipamento, deveria ter incluído um intenso debate com todos os agentes culturais da cidade e merecido um concurso público para a sua programação e gestão.
Em 2012 fui alertado para o estado de degradação do Mosteiro de Santa-Clara-a-Nova e fiquei sensibilizado pelo pedido de ajuda que me era feito pela Confraria da Rainha-Santa. Visitei (ver fotos) demoradamente o convento, datado do século XVII, na companhia da Prof. Maria José Azevedo, então vice-presidente da Câmara de Coimbra e vereadora da Cultura, e de várias outra pessoas ligadas à CCDRC. Fiquei chocado com o estado de degradação, de desleixo e de desprezo por um monumento nacional tão importante, e que mostra bem a descoordenação existente entre os vários serviços espalhados pelas regiões, e a respectiva ligação ao Governo central.
Mas isso não foi, por incrível que pareça, o que mais me impressionou. Na verdade, o que mais me impressionou foi a monumentalidade do espaço e as imensas possibilidades que tem. É um edifício enorme, com imensas salas e recantos, claustros fabulosos de uma beleza rara, uma vista sobre a cidade maravilhosa e imenso espaço nas traseiras do edifício (usado pelo exército português, a quem o convento esteve alugado, para construir enormes garagens para material circulante e outro). Imaginei logo imensas coisas que ali podiam ser sediadas, com enorme vantagem, dada a localização única. Se Coimbra queria um local para conferencias e espetáculos de média dimensão, que pudesse ainda adicionar espaços para outras manifestações de cultura e a capacidade de alojar visitantes numa pousada de elevada qualidade, este deveria ser o local a considerar em 1º lugar. O espaço está lá, a possibilidade de edificar o que falta (por exemplo, uma sala de espetáculos de média dimensão também, nas traseiras do edifício) também, a qualidade do espaço, da vista, a história viva em todas as paredes, a ligação à padroeira de Coimbra, a localização, tudo parece certo. Até a urgência em recuperar um local que não resistirá por muito mais tempo.
Num dia, também de 2012, assisti num dos recantos exteriores do Convento a um concerto da Orquestra Clássica do Centro, com Coimbra em linha de vista, e pensei quão fabuloso era aquele local. E imaginei-o utilizado em maior escala, ao serviço da cultura, da memória de uma cidade e de um povo, e do bom-senso. Aquele que preserva a nossa história e o nosso património e lhes dá novas valências e utilizações, gastando com parcimónia, estratégia e inteligência os fundos comunitários de que dispomos e que deveriam ser usados para dar uma nova vida àquilo que nos distingue como povo.
O que vejo por aí são massas volumosas de novos edifícios, construídos de raiz, às vezes a metros daqueles que deveriam ser requalificados, sem uma ideia, sem um plano, cheios de problemas de todo o tipo, que custam os olhos-da-cara a construir, que serão impossíveis de manter, desde logo porque são construídos sem objetivos e sem ter verdadeiramente identificado o problema que pretendem resolver, e que, consequentemente, no final não resolvem problema algum. Adicionam muitos outros.
Disse-o e repito: Muito dinheiro, pouca inteligência e nenhum bom-senso.

E se… , um programa de Norberto Pires
Realização de Rijo Madeira

“E SE… na Baixa de Coimbra” – COM A ASSINATURA DE NORBERTO PIRES

São comuns os lamentos dos comerciantes da Baixa de Coimbra relativamente à diminuição drástica de atividade económica. A Baixa de Coimbra pode muito bem “competir” com as grandes superficies quando perceber que é, pode ser, uma muito diferente grande superficie ao ar livre e perceber que tem de conquistar o rio, associando ao comércio atividades de lazer, tempos livres, etc., numa lógica global em que as acessibilidades e o estacionamento são resolvidas. Muito diferente porque baseada em comercio tradicional, de proximidade, serviços, alimentação (tapas e gastronomia regional), etc., num espaço que se estende até ao rio e tem locais de atividade cultural (música, teatro, galerias, etc.), mas também junta atividades paras as famílias, tudo numa lógica de criar uma nova centralidade. E tem de ser habitada, por forma a ter vida diária, provavelmente criando também no local condições para residências universitárias de alunos de pós-graduação, docentes e discentes visitantes, etc. A baixa tem de instalar empresas, aproveitando alguns dos edifícios que por lá existem. Tem de remover a linha de comboio entre Coimbra-A e Coimbra-B, transformar a estação de Coimbra-A num centro de negócios e conquistar o rio. A baixa só renascerá com gente que lá trabalhe e faça lá a sua vida, com atividades culturais que a diferenciem, com motivos para sair à noite, com atividade que apele a Coimbra. E se…

E se… , um programa de Norberto Pires
Realização de Rijo Madeira

Joaquim Norberto Cardoso Pires da Silva é actualmente professor  do Departamento de Engenharia Mecânica na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, onde é responsável pelo laboratório de Robótica Industrial. Organizou vários cursos, conferências e workshops sobre robótica e automação. É ainda director da revista técnico-científica Robótica, a única revista Portuguesa na área da robótica e automação.

“E se…” – com a assinatura de Norberto Pires

“E se…”

“Imagine que em breve seria fácil investir em Coimbra. Os espaços estavam organizados e o poder político sabia o que queria para o concelho. Que iniciativas industriais, e onde as queria colocar: imagine que os parques industriais estavam organizados e eram promovidos. Imagine que a gestão do seu concelho tinha decidido que tipo de iniciativas empresariais (em que área) iria privilegiar para funcionar dentro da cidade, procurando de forma sistemática atrair pessoas, investimento e gerando atividade económica.”

Joaquim Norberto Cardoso Pires da Silva é actualmente professor  do Departamento de Engenharia Mecânica na Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra, onde é responsável pelo laboratório de Robótica Industrial. Organizou vários cursos, conferências e workshops sobre robótica e automação. É ainda director da revista técnico-científica Robótica, a única revista Portuguesa na área da robótica e automação.