Arquivo da Categoria: E se…

Um programa com a assinatura de Norberto Pires.
Realização de Rijo Madeira

E SE 16 – Metrobus, o metro que já não é comboio, mas é promessa de BUS.

O “E se…” dirige-se neste episódio aos habitantes de Coimbra e da região de Coimbra para que exijam que seja desta vez que o Metro sai do papel. Desde 1996 que se promete uma solução de mobilidade para Coimbra. Vários milhões de euros depois, recuos e avanços, com várias “soluções” estudadas vezes sem conta, e abandonadas também vezes sem conta, num processo em que se destruiu o velho comboio que existia, Coimbra não tem uma solução de mobilidade. Agora anuncia-se uma solução em formato de loja de chinês, isto é, um Metrobus. O Governo, jurando a pés juntos que não nada tem de eleitoralista, anuncia que tem 120 milhões de euros para a “obra”: 85 milhões para o BUS, 15 milhões para a Estação de Coimbra-B e 20 milhões para material circulante. Eh! lá!, dizem os mais desconfiados. Como é que um Governo que anunciou 2,7 mil milhões para modernizar a Ferrovia Nacional e só executou 160 milhões (7%), vai agora gastar 120 milhões em Coimbra? Se aplicar-mos a mesma taxa de execução estamos a falar de 8,4 milhões de euros…
O “E Se…” alerta para isso e desafia todos a exigirem ao Governo, à CCDRC e a Manuel Machado que cumpram a sua palavra e construam o metro: Eh! pá, construam o BUS, Porra!

E SE 15 – Esperamos que em 2019 seja ano de REALIZAR

Durante os anos de 2017 e 2018 andamos pela região de Coimbra e assinalamos muitas situações que precisam de atenção. Registamos que, em muitas delas, nada aconteceu, nada melhorou. Noutras, a situação até piorou. Na economia e nas empresas, Coimbra continua a marcar passo. A mentirola do aeroporto internacional passou sem consequências. O descalabro dos transportes continua: Coimbra, uma cidade universitária, vive com uma vergonha que é a sua estação de comboio. O iParque continua adiado. A cultura continua uma promessa. Um pouco por todo o lado se verifica a falta de estratégia. A vergonha que foi o processo da nova maternidade mostra que Coimbra é inconsequente. Discute, envolve-se em polémicas, mas não realiza.
Para 2019, em todas estas áreas, desejamos mais realização e mais estratégia. Pode ser?

“E se…” deseja a todos um excelente 2019.

E SE 14 – Movimento de Humor

O “E se…” foi acompanhar a apresentação do estudo científico e técnico lançado pelo MH, com a colaboração do Professor Doutor Dom Ingues da Universidade da Flórida. Nesse estudo, com demonstração técnica no local, garante-se que é possível instalar um Aeroporto Internacional no Largo da Portagem em Coimbra. O estudo foi distribuído pela população e os responsáveis pelo MH deram conta da sua atividade cívica.
Na verdade, se há alguma verdade nisto, o MH aproveitou o 5 de outubro para se dar a conhecer e lançar o número zero da revista que pretende tornar regular.
“E Se…”, com humor, estivéssemos atentos ao que se passa em Coimbra?

E SE 13 – Perguntas sobre a Maternidade de Coimbra

Recentemente, um grupo de trabalho nomeado pelo Governo apresentou um relatório em que recomendava a construção de uma nova Maternidade em Coimbra, no espaço dos atuais Hospitais da Universidade. Outras opções, como reinstalar os atuais serviços no Hospital dos Covões, na maternidade Bissaya Barreto ou no Hospital Pediátrico foram liminarmente afastadas. A decisão, prontamente anunciada pela ARS do Centro e pelo PCA dos CHUC, na presença do Ministro da Saúde, é de tal forma estranha que causou de imediato polémica. Na verdade, quem conhece minimamente o espaço dos HUC, cheio de trânsito, sem estacionamento, com gravíssimos problemas urbanísticos no espaço circundante, sobrelotado, estranhamente desorganizado e onde são frequentes todo o tipo de situações médicas nos serviços de urgência e de ambulatório, nomeadamente gravíssimas infeções resistentes, não poderia deixar de estranhar como é que se pretende instalar uma maternidade naquele espaço. Os argumentos ainda eram mais estranhos, pois centravam-se na segurança das grávidas e recém-nascidos, aparentemente dependente da proximidade física aos serviços de emergência (blocos operatórios e serviços de cuidados intensivos) e da capacidade de mobilizar rapidamente várias especialidades. Projeta-se então construir 13.000 m2 na zona leste dos HUC, ocupando o atual espaço da enfermaria masculina da psiquiatria e de uma enfermaria de neurologia. No referido relatório nada se dizia sobre novos blocos operatórios, salas de parto ou unidades de recobro, mas, depois de algum debate, passou a dizer-se que, afinal, existiriam espaços independentes dessas tipologias dedicados à nova maternidade. Como nada disso está no projeto apresentado, começamos já com uma originalidade que é ter um deslize orçamental ainda antes de a obra começar. Ou será que se prevê é mesmo compartilhar espaços assistenciais com os usados pelos doentes do resto do hospital? Pelo meio lançaram-se números assustadores: 20% das grávidas estariam em risco e, pasme-se, de um momento para o outro o funcionamento das maternidades existentes, ainda há pouco considerado de excelência, passou a ser classificado de “criminoso”. As minhas perguntas começam aqui, depois de ter ouvido muita gente, entre profissionais de saúde, políticos, cidadãos em geral, incluindo aqueles que são um pouco de tudo isto. 1) Se as maternidades têm de ser reorganizadas e fundidas, por que razão não podem ser usadas as instalações da Bissaya Barreto? Se é necessário construir um novo bloco e até unidades de recobro à parte, porque não se faz isso na maternidade? Quem tem de se deslocar são os especialistas sempre que necessário. E os mesmos deveriam ter meios de transporte rápido para percorreram os poucos mais de 500 metros entre os HUC e a Bissaya Barreto. 2) Dos 20% de eventos registados em grávidas, quantos são exatamente não antecipáveis, graves e emergências? E desses, quantos não poderiam ser resolvidos, com total segurança, numa maternidade renovada em instalações e meios humanos? 3) Por que razão não pode a nova maternidade ser instalada nos Covões, que tem todas as condições para a acolher, incluindo blocos já montados e unidade de cuidados intensivos, e ainda as condições necessárias para os utentes e seus familiares: enfermarias, espaço, estacionamento, etc.? 4) O que leva a comissão a preferir o espaço sobrelotado dos HUC, construindo mais um edifício, a soluções bem mais simples, aparentemente mais seguras e talvez menos onerosas? E como ou onde vai reinstalar os serviços que remove dos HUC? Por exemplo, a psiquiatria vai de novo ser estigmatizada para um getto, como o antigo pediátrico ou para o Sobral Cid, ou vai, em parte, ser encaixada noutros lados, proporcionando assim mais um downsizing disfarçado de inovação? 5) Se a presença nos HUC é essencial por uma questão de proximidade a cuidados intensivos e outras especialidades no caso das grávidas, o que dizer de todos os serviços desconcentrados dos HUC que funcionam um pouco por toda a cidade e não têm essa proximidade? Não interessam? Não necessitam? Serão aqueles serviços dedicados a velhos, incuráveis ou descartáveis, já com a morte no horizonte das suas vidas? Qual é a razão desta diferença de tratamento? Não deveria o cuidado ser igual para todos? Não deveria a tal comissão, que “resolve” liminarmente todos os problemas de ordenamento e de circulação sobrelotada da zona com a proposta de construção de um silo auto, considerar as consequências para os doentes dos serviços deslocalizados? Estas perguntas, e muitas outras, fui fazendo durante as últimas semanas e não obtive resposta. Gostava de ter resposta e gostava de lembrar que a saúde é de tal forma importante para Coimbra e para todos os cidadãos que não pode, de forma alguma, estar somente na mão de alguns.

E SE… um programa de Norberto Pires com realização de Rijo Madeira

 

E SE 12 – Especial – Em defesa da memória e do futuro

Um país sem cultura é um país sem memória, sem passado e sem esperança no futuro. Mais do que um espaço mal ocupado, é um espaço que em breve ficará livre, deserto, sem vida.

Ano após ano, Governo após Governo, ministro após ministro, ouvimos juras de amor à cultura, à necessidade de a apoiar, divulgar, dar a conhecer. Ouvimos hossanas à sua importância estratégica, à importância que tem num país vivo e dinâmico.

Eleito um Governo de esquerda, com promessas de dar prioridade à cultura, devolvendo-lhe a dignidade de um Ministério, de um orçamento digno e de debate sobre a forma como tudo seria planeado. Aparentemente, esse Governo esqueceu as promessas, o orçamento e a dignidade. Ouviu, sem debater e sem verdadeiramente escutar.

No limite, os agentes culturais e o público foram para a RUA dizer que querem que a Cultura seja uma prioridade. Este país gasta anualmente 1.2% do PIB em Ciência e 0.8% do PIB em Cultura (dados de 2017 – os valores eram inferiores em anos anteriores).

Só em bancos, desde 2007, Portugal já gastou 17 mil milhões de euros de dinheiro dos contribuintes. Considerando o PIB de 2017 (193,1 mil milhões de euros), isso equivale a 8,81% do PIB2017 gasto a resgatar bancos em 11 anos. Dá que pensar.

O “E se…” participou na ação de rua “Cultura acima de Zero” em Coimbra e ouviu o que vários agentes culturais tinham para dizer.

E SE 11 – A realidade dos “sem abrigo” em Coimbra

A realidade dos “sem abrigo” em Coimbra é desconcertante. Assim, de repente, parece que não são muitos, pelo menos aqueles que são visíveis, mas são várias dezenas aqueles que vivem à margem da vida. Com 186 euros e 68 cêntimos mantêm uma existência errática, desprendida, isolada e muito pouco humana. Fomos ver como viviam, o que pensavam, como olham para o mundo e qual é a sua rotina. A palavra rotina aplica-se na perfeição. Vivem uma forma de vida, sem vida, puramente mecânica e bioquímica. São seres quase invisíveis, com 186 euros e 68 cêntimos. Já não estão na rua, apesar de muitos dos quartos que alugam serem ainda piores que a própria rua, as roupas não estão rasgadas e têm acesso ao mínimo de higiene pessoal. Tornaram-se invisíveis ao olho apressado. Mas estão lá, são cada vez mais e nada parece resolver a sua sina.
Neste programa, que foi muito difícil de gravar, andamos por Coimbra, vimos a realidade e trazemos-lhe as palavras do Samuel. O resto é somente aquilo que gostaríamos que você fizesse: pensasse um bocadinho na vida destas pessoas que todas as outras abandonaram, apesar de várias instituições de apoio social, com a presença da Câmara Municipal de Coimbra, apoiadas por muitos voluntários fazerem um trabalho quase heróico.

E se 10 – Voar toscamente sobre os problemas

Voar toscamente sobre os problemas
Neste programa são citados dois exemplos que mostram a completa ausência de estratégia de Coimbra para o futuro. Nem é um problema de agora, da atual gestão da câmara, nem algo que queiramos relacionar com o partido A ou o partido B. É um problema de ausência de reflexão estratégica e de decisões que sejam entendidas como coletivas, de forma a que sejam realizadas seja qual for o ciclo político. Sem essa reflexão, capacidade de compromisso e visão a longo-prazo, o caminho de degradação e insignificância que Coimbra tem seguido manter-se-á.
Fazemos ainda uma simples comparação com Londres. Uma cidade em tudo diferente a Coimbra, até na atitude competitiva e na capacidade de perceber que o sucesso é o resultado do trabalho diário e não se pode desleixar na atividade de construir a melhor cidade do mundo para se viver, trabalhar, estudar e fazer turismo.
O convite é para que comparem com Coimbra: a cidade que já quis ser capital de tudo sem ser consequente com esses desejos, que se comporta como uma muito pouco humilde Aristocrata falida e que, por alguma razão misteriosa, desenvolveu a ideia de que os outros é que a têm de a procurar. Ficou, portanto, só – com a sua vaidade e falta de humildade – e não parece ter a noção do caminho de degradação e insignificância que está a seguir.
O “London Invest” ajudou, só em 2017, quase 300 empresas internacionais a instalar-se em Londres. Compare com Coimbra. Veja a diferença de atitude, de comportamento e de preparação para o investimento. Custa aprender?

 

 

E SE 9 – Uma vida que ardeu, uma esperança que é necessário reconstruir

Uma vida que ardeu, uma esperança que é necessário reconstruir!

Oliveira do Hospital ardeu depois de Pedrógão. Morreram muitas pessoas, várias famílias ficaram destruídas e isso nunca ficará bem e nunca se resolverá. São marcas que ficam para a vida toda, são memórias que voltam e atormentam.
O que ardeu foi praticamente tudo.
Floresta e espaço verde de lazer. Na verdade, o verde praticamente desapareceu.
Empresas e o emprego de muita gente. Depois das mortes, este é o drama mais significativo.
Na J. Guerra, Lda trabalhavam 50 trabalhadores. Ardeu a 100%. Demorará muito tempo a voltar a laborar. Mas demorará ainda mais tempo a recuperar o ânimo, a alegria de viver. Isso é o mais significativo no que vemos.
Na empresa Construções Gouveia & Filho, Lda trabalhavam 34 trabalhadores. Ardeu a 100% e pensa estar a laborar dentro de alguns meses.
Luís Lagos, empresário e ex-presidente de uma distrital partidária, percebeu que tinha de dar um passo em frente e ajudar na reconstrução do seu concelho. Viu a desgraça perto da sua família e empresas a desaparecerem. A sua não sofreu, mas a da sua mulher foi totalmente destruída.
Os custos associados a estes incêndios medem-se em vidas perdidas, famílias destruídas, floresta perdida, negócios arrasados e um efeito muito significativo na esperança num futuro melhor. De tudo, apesar de certas coisas não terem solução, o mais difícil de recuperar é o ânimo necessário recomeçar tudo de novo. Esse é o maior custo, porque apesar de tudo a vida continua, e aquele aspeto que merece uma atenção muito especial.
Os incêndios deste verão mostram um país desorganizado e impreparado para estes eventos naturais.
O “E se…” quis mostrar essa realidade, deixando claro que é nossa obrigação garantir que vamos construir um país que estará preparado e é solidário com quem é atingido pela calamidade. E essa é uma resolução que todos temos de tomar e realizar.

“E Se…”, um programa de Norberto Pires com realização de Rijo Madeira.

E SE 8 – Coimbra com futuro: Active Space Automation

 

A região de Coimbra tem sido capaz de gerar tecnologia e negócios que se distinguem no mundo. São vários os exemplos de empreendedores, empresas e produtos que têm o nome de Coimbra de alguma forma associado. No “E se…” vamos falar dessas pessoas, dessas empresas e desses produtos. A ideia não é mentir e dizer que está tudo bem. A ideia é contar a verdade, mostrar que com a estratégia certa, com a capacidade coordenar os vários atores da região, com a capacidade de incentivar os motores de desenvolvimento, Coimbra tem condições para fixar empreendedores, atrair e fixar atividade económica e construir soluções que podem fazer a diferença nas várias áreas de atividade.

Hoje vamos ver o exemplo da Active Space Automation, uma empresa recentemente criada como spin-off da ActiveSpace Technologies – empresa criada há cerca de 13 anos e que se dedica a sistemas para o ESPAÇO.
A indústria pede sistemas de transporte para armazenamento e para ambiente produtivo.
Em armazém, por exemplo, existem várias tarefas a automatizar e que estão essencialmente ligadas ao transporte de peças para armazenar ou para constituir uma encomenda que, entretanto, foi efetuada. Um grande armazém com, por exemplo, a AMAZON ou o ALIBABA têm uma movimentação frenética que precisa deste tipo de máquinas.
De uma maneira geral, qualquer armazém com encomendas online beneficia muito de uma operação deste tipo que automatize e agilize a cadeia logística.
Em ambiente produtivo, isto é, para tarefas de alimentação de linhas com as peças necessárias, transporte de produtos semiacabados, armazenamento intermédio e final, etc., os AGV são também muito usados.

Em Coimbra, uma empresa aceitou o desafio de entrar neste mercado. Criou um AGV que pode ser utilizado em todas essas tarefas.
A empresa é a Active Space Automation e o AGV é o ActiveONE.
A Active Space Automation tem 14 trabalhadores (50 no total da Active Spce) e espera faturar cerca de 700 mil euros em 2017 (3 milhões no total da Active Space). Está localizada em Taveiro e tem excelentes condições para desenhar, projetar, construir e comercializar soluções que utilizem esta tecnologia.

Capacidade de projeto em 3D.
Capacidade de desenvolvimento de eletrónica.
Capacidade de soluções de controlo.
Meios de produção de protótipos.
Capacidades de teste.
Uma equipa jovem e fortemente motivada para este tipo de soluções.

Um dia (em 2015), com um protótipo, abordaram uma grande empresa (A AutoEuropa) e prometeram que teriam um produto em breve. Cumpriram prazos e ganharam um parceiro.

Mas o que é o ActiveONE?
É um AGV, filo-guiado, isto é, que segue um trilho eletromagnético colocado no chão (o trajeto), de construção nacional e que pode ser usado nas soluções mais exigentes: é preciso, rápido (1500 mm/s), com elevada capacidade de autonomia (em operação normal as baterias não precisam de carga durante mais de 7-8 horas), capacidade de movimentação de carga até 800 kg, ligação em rede sem fios, etc.

Deixo-vos com o ActiveOne e com a Active Space Automation. Este produto, estes empreendedores e esta empresa são um exemplo do que Coimbra pode fazer e como pode liderar mesmo nas áreas mais exigentes. São um bom exemplo de visão, de capacidade de fazer parcerias, da capacidade de realizar e mostram um vislumbre de uma região onde as coisas acontecem.
E se Coimbra estivesse focada nessa ideia de criar as condições para projetar e produzir as soluções tecnológicas do futuro? Não seria tudo diferente?

“E Se…”, um programa de Norberto Pires com realização de Rijo Madeira.

E SE… A Rua de Santa Sophia e um FUTURO POR CUMPRIR

Uma rua fantástica, com história e um potencial fabuloso: a Rua de Santa Sophia, de Coimbra (atualmente, Rua da Sofia).
Uma rua com história, com um passado fantástico. Uma rua que tem muito a contar, basta que estejamos disponíveis para ouvir. Uma rua que tem um futuro por cumprir.
É esse o tema do 7⁰ episódio do “E se…”, um programa de Norberto Pires, com a realização de Rijo Madeira.

O rei D. Dinis criou em 1290 uma Universidade Portuguesa, dando origem a uma instituição que é hoje a universidade mais antiga do país e uma das mais antigas do mundo. O documento de criação da universidade dá origem ao Estudo Geral que é reconhecido nesse mesmo ano pelo Papa Nicolau IV. Essa Universidade começou a funcionar em Lisboa, mas foi transferida definitivamente para Coimbra em 1537 por ordem de D. João III. A vida da Universidade prossegue em Coimbra, com várias peripécias até atingir aquilo que é hoje: uma universidade internacional, clássica, com forte imagem em Portugal e no Estrangeiro, fruto do prestígio dos seus docentes, alunos, investigadores e da atividade científica e cultural que realiza.
Não é sobre a Universidade de Coimbra que vos quero falar, mas sim de uma das ruas mais antigas da europa e que esteve na génese da Universidade de Coimbra e é hoje património mundial da UNESCO: a Rua da Sofia.
A transferência da universidade portuguesa de Lisboa para Coimbra está relacionada com a necessidade de lhe dar um novo impulso. Os anos de funcionamento em Lisboa levaram a uma certa acomodação do corpo docente, não se desenvolveram colégios de apoio com a função de realizar estudos propedêuticos, como o rei esperaria que tivesse acontecido, o programa de estudos não estava alinhado com os vetores essenciais do humanismo cristão de vanguarda e existia uma grande quantidade de alunos portugueses que procuravam escolas estrangeiras para estudar, nomeadamente, Salamanca, Alcalá (uma pequena cidade situada a nordeste de Madrid), Bolonha, Florença, Paris, entre outras. D. João III, reconhecendo o problema, decidiu então criar em Coimbra um dos “grandes centros culturais da península”, transferindo para esta cidade, construída nas margens do rio Mondego, a universidade portuguesa.
O rei dispunha de importantes fundos financeiros para lançar o projeto universitário na cidade de Coimbra. Na verdade, tinha iniciado uma importante reforma (espiritual e material) do Mosteiro de Santa Cruz, nomeadamente da Ordem dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho ou Cónegos Regulares da Ordem da Santa Cruz, libertando assim para sua gestão os abundantes rendimentos que estes geravam. Tinha nomeado em 1527 como reformador da respetiva congregação o frade da Ordem de São Jerónimo Frei Brás de Braga, com a missão suplementar de restaurar os Estudos do Mosteiro de Santa Cruz. Mandou vir de Paris dois Doutores, Pedro Henriques e Gonçalo Álvares, que gozaram de tal fama como professores que Frei Brás criou, no interior do Mosteiro, dois colégios: O Colégio de São Miguel (dedicado aos filhos dos nobres) e o Colégio de Todos os Santos (dedicado aos mais pobres). Mais tarde, em 1544, o Prior-Geral (D. Dionísio de Morais), mandou construir, no topo da Rua da Sofia (no local que é hoje o Centro de Artes Visuais e o Pátio da Inquisição), edifícios para os dois colégios, os quais seriam mais tarde (1547) requisitados por D. João III para instalar o Colégio Real das Artes e das Humanidades.
O Mosteiro de Santa Cruz desenvolvia vários estudos no seu interior, que no essencial são os embriões de um futuro estudo superior. Desempenham aqui papel importante os estudos públicos de artes que se iniciaram em 1534-35 e os estudos dos Colégios de Santo Agostinho e de São João Batista, instalados no interior do Mosteiro e para os quais se tentou um modelo à imagem da escola parisiense (limitados a estudos de Artes, Teologia e Medicina). A dinâmica do Mosteiro de Santa Cruz levou a pensar na construção de uma infraestrutura urbana para acomodar os estudos a criar junto ao Mosteiro. Foi assim que nasceu a ideia de uma rua nova, virada a norte, com início no Mosteiro de Santa Cruz, muito larga (13 metros) e cerca de 500 metros de comprimento, que tivesse colégios de um lado (nascente) e edifícios de rendimento do outro (poente). O desenho definitivo dessa rua ficou definido em setembro de 1535, depois de vária troca de correspondência entre D. João III, o reformador Frei Brás de Braga e o arquiteto do Rei em Coimbra, Diogo de Castilho.
Os planos iniciais para esta rua são os de aí realizar o essencial da Universidade, pois D. João III pretendia construir no início da rua um Colégio de São Jerónimo e um edifício letivo central. No entanto, quando em 1537 se transfere a universidade portuguesa para Coimbra parece haver uma mudança de planos: o Rei D. João III separa os estudos do Mosteiro de Santa Cruz da universidade, nomeando um Reitor (D. Garcia de Almeida) independente de Santa Cruz e definindo que o edifício sede já não se construiria na baixa. A preocupação era, talvez, a de preservar a autonomia da universidade.
Em setembro de 1537, o rei determina que as novas escolas gerais se instalassem na alta da cidade, fazendo, no entanto, algumas cedências ao reformador Frei Brás de Braga (pois dependia financeiramente do dinheiro gerado em Santa Cruz): a maior parte dos estudos instalavam-se nos paços reais da alta, enquanto que os estudos de artes e teologia ficavam em Santa Cruz.
O loteamento da Rua da Sofia começa em 1538, no que se refere à parte de prédios de rendimento e em 1541 no que se refere aos colégios. Avançariam vários colégios, dos quais podemos dar nota na atual Rua da Sofia. Mas antes disso, em 1544, com a nomeação do frade da Ordem de São Jerónimo Frei Diogo de Murça como reitor da universidade, deu-se início ao processo de unificação da universidade, transferida de Lisboa, com os estudos de Santa Cruz. Isso acontece em 1545, quando D. João III ordena que todos os lentes de medicina, teologia, artes e latim, mudem para os paços reais da alta.
Nessa altura, avançava a ideia de concentrar na alta da cidade os estudos superiores e na baixa os cursos propedêuticos/preparatórios de artes e humanidades. Uma ideia que reconvertia o projeto da rua da sofia, agradava a Frei Brás de Braga e tinha sido delineado entre D. João III e André de Gouveia, um docente muito prestigiado que dirigia o Colégio da Guiana em Bordéus e tinha sido reitor da Universidade de Paris. Assim, a Rua da Sofia deveria acomodar principalmente colégios de ordens religiosas que tinham especial interesse nesse tipo de estudos. Os colégios seculares que estavam então em fase de instalação foram transformados em colégios de ordens religiosas. Por exemplo, o Colégio da Graça, dos eremitas calçados de Santo Agostinho, iniciou a sua construção, com projeto de Diogo Castilho, em 1593.
O Real Colégio das Artes e das Humanidades, instalado nos edifícios dos Colégios de São Miguel e de Todos os Santos (local onde hoje é o Centro de Artes Visuais e o Pátio da Inquisição), iniciou-se em 1547 e era um edifício que deveria ter amplas salas de aula e albergar estudantes de vários estratos sociais. O ensino visava a formação moral e humanística dos jovens, sendo ministradas matérias como a teologia, dogmática, escrituras, gramática, retórica, poesia, matemática, grego, hebraico, lógica e filosofia, além de ler e escrever. O Colégio das Artes está na génese do atual ensino secundário. As aulas começaram em 1548, tendo registado um elevado sucesso com cerca de 800 alunos logo no primeiro ano.
No entanto, a existência do Colégio das Artes não foi pacífica por disputas internas de mestres parisienses e bordaleses. Na verdade, André Gouveia tinha sido nomeado para dirigir o Colégio das Artes, trazendo consigo uma equipa de notáveis professores portugueses e estrangeiros. De entre estes destacam-se João da Costa, Diogo de Teive, António Martins, George Buchanan, Patrick Buchanan, Nicolas de Grouchy, Arnaldo Fabrício, Guillaume Guérante e Élie Vinet. O contraste entre os princípios humanistas dos “bordaleses”, liderados por André de Gouveia, e a visão ortodoxa defendida pelos “parisienses”, liderados por seu tio Diogo de Gouveia, viria a provocar alguns atritos. Esses atritos tornaram-se muito sérios com a morte de André Gouveia em 1548, pelo que D. João III entregou, em 1555, a gestão do Colégio das Artes aos jesuítas. Estes tinham iniciado a construção do primeiro colégio jesuíta do mundo na alta da cidade (o Colégio de Jesus, onde funciona hoje o departamento de Ciências da Terra), pelo que transferiram, em 1565, o Colégio das Artes para um edifício a construir ao lado do respetivo colégio. Com esta mudança, a Rua da Sofia perde toda a sua funcionalidade, pois todos os cursos, superiores e intermédios, passam a estar localizados na alta da cidade.
Apesar disso, os colégios da Rua da Sofia que já tinham sido estabelecidos foram-se construindo, sendo possível encontrar ainda muitos deles na atual Rua da Sofia.
Colégio Novo de Santo Agostinho (atual Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação) – 29: apesar de não se situar na Rua da Sofia, tem um impacto visual muito significativo nessa rua (fica situado a meia encosta no extremo sul da rua).
Mosteiro de Santa Cruz – 31.
Antigo Colégio das Artes, Pátio da Inquisição, Centro de Artes Visuais – 21 (de João de Ruão e Diogo Castilho, 1547).
Colégio do Espírito Santo ou de São Bernardo, privado – 22 (Claustros de Miguel de Arruda, 1541).
Colégio do Carmo – 23 (1540)
Colégio da Graça- 24 (1543, Igreja e Claustro de Diogo de Castilho)
Colégio de São Pedro, atualmente uma casa de saúde – 25 (1540)
Colégio de São Tomás, onde hoje é o Tribunal de Coimbra – 26 (Diogo de Castilho, 1543)
Colégio de São Boaventura, privado e com espaços comerciais – 27 (1543).
Os Colégios de São Tomás, de São Boaventura e de São Domingos são os únicos que foram construídos do lado poente, como reflexo do fracasso da ideia original para a Rua da Sofia.
A extinção das ordens religiosas em 1834 acabou com a existência dos colégios. Os edifícios foram incorporados no património do Estado, sendo alguns deles vendidos para vários fins.
A história da Rua da Sofia, património mundial da Unesco, é muito rica e está fortemente ligada à história da Universidade de Coimbra. Por isso, quando se discutiu a possibilidade de recuperar e revalorizar os Colégios da Sofia, num debate realizado em 1999, o então reitor, Fernando Seabra Santos, lançou a ideia de constituir na Sofia o Polo 0 da Universidade de Coimbra, transferindo para lá algumas valências universitárias. Essa seria uma forma de fomentar a gigantesca tarefa de dar um novo propósito à Rua da Sofia que, de alguma forma, recuperasse a ideia original de meados do século XVI.
Um bom exemplo, é o que tem sido feito no Colégio da Graça e que urge acelerar.
A Rua da Sofia merece, pela sua importância histórica, ser reabilitada, assim como os vários colégios que ainda existem. Faria também sentido que a sua história fosse mais visível, mais visitável e mais promovida. A história da universidade portuguesa está um pouco naquela rua, naqueles edifícios, na sua arquitetura e nas histórias que têm para contar. E se Coimbra pensasse na reabilitação histórica, monumental e funcional da Rua da Sofia, dando-lhe também uma dimensão turística relevante? Não se esqueçam que os edifícios do lado poente eram edifícios de rendimento, um propósito que pode também ser explorado transformando, de novo, a Rua de Santa Sophia num importante local comercial e económico da cidade de Coimbra. E se pensássemos nisso?
J. Norberto Pires
Universidade de Coimbra
Referências
1) Rui Lobo, A Universidade na Cidade, Tese de Doutoramento, Universidade de Coimbra, 2010
2) Rui Lobo, “A Rua da Sofia em Coimbra. Um património a repensar”, Revista Proyetar la Memoria, 2014
3) Site da Universidade de Coimbra: http://www.uc.pt/ruas/inventory/mainbuildings
4) Outros links referidos expressamente no texto.